Entenda a relação entre pais x comida x filhos

Se seu filho come mal, o Pequeno Gourmet alerta: pode ter – e muito – a ver com os pais. Há mais de 30 anos estudando a relação entre pais, crianças e comida, o médico Benny Kerzner, pediatra e gastroenterologista do Children’s National Medical Center, em Washington DC/EUA, é especialista em nutrição e desordens alimentares infantis. Em 2010 ele publicou um guia, destinado aos pediatras, com sugestões de como lidar com as queixas das famílias sobre a relação da criança com o prato de comida.

Em seu material, o médico diz que “entre 20% e 60% dos pais afirmam que seus filhos não comem bem, que são muito seletivos ou ‘esquisitos’, ou que comem muito pouco, que não avançam para uma alimentação mais complexa, rejeitando tudo que é novo, ou que só gostam de junk food”. Dr. Kerzner também diz que “há boas evidências de que as dificuldades alimentares podem não estar associadas a uma doença, mas sim a conflitos entre os pais e a criança.”

Para entender mais como a relação entre pais e filhos influencia na alimentação, o Pequeno Gourmet conversou com a Dra. Ana Carolina Fantin, Psicóloga pela PUC-SP, com Especialização em Psicologia Clínica e Psicanálise também pela PUC-SP, que nos explicou a relação entre crianças e comida, pelo olhar da psicanálise e de que forma mães e pais influenciam na alimentação de seus filhos.

Pequeno Gourmet: De onde vem a relação entre alimentos, pais e crianças?

Dra. Ana Carolina: A alimentação é, dentre outros estímulos e cuidados essenciais como colo, higiene, conforto e acolhimento, um dos primeiros fatores que estabelece uma forma de troca afetiva entre pais e filhos. Podemos entender a alimentação de um bebê e da criança, simbolicamente, como um gesto de amor profundo, como a expressão do desejo de vida que os pais têm pelo filho. É interessante destacar, especialmente, a amamentação como forma primordial de troca afetiva entre mãe/bebê. Não é à toa que os bebês muito pequenos, por vezes, se acalmam no peito da mãe.

PG: De que forma as preferencias, resistências, opções ou traumas dos pais com determinados alimentos é repetido pelos filhos?

AC: Costumo dizer que as crianças são como esponjas: ela “chupam” tudo de seus pais, aquilo que eles expõem e aquilo que eles tentam “esconder”, consciente ou inconscientemente. Sendo assim, eles captam o comportamento dos pais em relação a alimentação. O fato dos pais gostarem mais ou menos de um alimento (ainda que tentem disfarçar isso pro filho) pode interferir na forma como esse alimento é oferecido, no grau de tolerância caso ele seja recusado (“tudo bem, vai…eu também detesto isso”) ou no grau de satisfação que sentem caso o filhote coma bem (“esse é igual a mim, tem o mesmo gosto que eu”), etc.

Alguns fatores podem estar presentes nesses exemplos: a criança pode imitar os pais na rejeição de algo (“nem o papai/mamãe gostam/comem isso”) ou pode comer para agradar pois gosta de se sentir amada, elogiada (“mamãe/papai fica feliz, me elogia, sinto o orgulho dele por mim”). A criança “saca” a relação e a reação de seus pais com os alimentos e com eles!

PG: Qual a importância de ensinar para os filhos, desde pequenos, a se alimentar corretamente?

AC: Sem dúvida a questão da saúde fala muito alto! Uma boa alimentação é a base da saúde física, psíquica, intelectual. É a base do desenvolvimento saudável como um todo. Mas, devemos lembrar que, melhor do que falar aos pequenos o que eles devem fazer, é mostrar – servindo de exemplo.

PG: Para a psicologia, de que forma sabores, cheiros, texturas e cores de alimentos influenciam na relação da criança com comida no futuro?

AC: A alimentação, o alimentar-se, o comer são funções constituídas desde os primeiros momentos de vida de um ser humano, a partir da relação afetiva que se estabelece entre o bebezinho e seus cuidadores. Partindo dessa premissa, entendemos que a relação de uma criança com a comida transcende a forma física ou de apresentação do alimento. O que determina como a criança vai se relacionar com a alimentação é fruto de todo um processo inconsciente que permeia a relação mãe-bebê nas mais variadas nuances. A fase de desenvolvimento que ela se encontra também é muito importante! E existem as “fases individuais” de cada criança: tem a fase que a criança “gruda” num determinado alimento, a fase em que “só comem bem com fulano e ciclano, mas com a mãe não come nada”, a fase que está testando limites e tudo que é oferecido e “não quero” e por aí vai!

Devemos lembrar que, diferentemente dos exemplos acima (que entendemos como pequenos períodos de cada criança), um caso de recusa alimentar mais constante sugere a necessidade de procurar um psicólogo. Muitas vezes, é algo simples que se ajusta facilmente. Para ajudar os pais a pensarem, vale a pena observarem o entorno, o dia a dia do filho e a partir daí levantar as hipóteses.

Entretanto, como estamos falando de crianças, é claro que a aparência dos alimentos, a apresentação, o colorido, texturas e formas podem ser fatores de facilitação para o processo de alimentação dos pequenos!! Mas, é uma facilitação e não a causa do comer bem ou comer mal.

PG: Do ponto de vista psicanalítico, é possível que pais que não levam uma vida saudável determinem esse estilo para os filhos?

AC: Sem dúvida! Como falei anteriormente, os pequenos percebem bastante os movimentos, escolhas e a posição dos pais frente a diversas questões e a chance deles imitarem esse tipo de comportamento existe: é mais fácil eles fazerem o que os pais fazem do que fazerem o que os pais dizem (e não praticam). Existe todo um processo de identificação (consciente e inconsciente) entre as crianças e seus pais atuando, principalmente, durante a primeira infância (até os 7 anos).

PG: Como os pais podem reverter essa situação?

AC: Com muita tranquilidade, buscando informações sobre a alimentação infantil, buscando ajuda de um profissional, se for o caso,  e mantendo a certeza de que tudo se resolve.

Dica importante: os pais devem buscar se sintonizar com o filho no sentido de identificar possíveis fatores que possam estar deixando a criança desconfortável. Fatores como a idade, a dinâmica familiar, o momento em que a família se encontra (mudanças, separações, nascimentos e perdas, novas atividades da criança e/ou dos pais), se os pais estão muito ausentes ou se “sufocam” a criança com excessos, forma de educação oferecida a criança são alguns exemplos que podem ser os responsáveis para uma dificuldade na alimentação.

Considerando que, na maioria dos casos, a dificuldade com a alimentação das crianças está ligada ao psicológico junto ao dia a dia concreto da família creio que, perceber o que não vai bem, permitir a criança a expressão de seus sentimentos e conversar com ela sobre os fatos e ajudá-la a entendê-los, pode ser uma boa forma de lidar com o sintoma da dificuldade alimentar.

PG: Quais suas dicas para pais que enfrentam problemas dessa ordem?

AC: Pais: mantenham a calma!!! Não se desesperem porque o pequeno não vai morrer de fome!!! A família vai encontrar um caminho, existe solução. A primeira é sair do desespero: “ele não come, ai meu Deus!!!”

É muito importante que não cedam a chantagens das crianças bem como não proponham trocas/presentes “porque comeu tudo”. Não fiquem fazendo mil e uma opções de alimentos “para tentar que o filho coma” (come-se o que tem na mesa para a família ou o que foi destinado a criança). Não abram mão das regras estabelecidas para a rotina de alimentação (sim, regras e horários são fundamentais até nisso!) “só pra ver se ele come” e, importante (e difícil!): não se tornem reféns dos filhos implorando para que eles comam, vivendo em função disso. A criança percebe a angústia dos pais com isso e pode tentar “manipular” coisas em benefício próprio (nem que seja ser o centro das atenções). Tentem fazer da alimentação algo simples e prático. Lembrem-se: regras para a alimentação também são fundamentais.

 

Sobre o entrevistado
Nome: Dra. Ana Carolina Fantin
Profissão: Psicóloga
Contato:

https://www.facebook.com/carolinafantinpsicologia/?fref=ts)

Telefone do consultório – 11 3258-8137

Dra. Ana Carolina Fantin


Sobre:

Psicóloga pela PUC-SP, com Especialização em Psicologia Clínica e Psicanálise também pela PUC-SP

iconComentários

Imagine receber toda semana uma coletânea dos posts mais legais do Pequeno Gourmet.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER