Como identificar e tratar diabetes na infância?

O  Pequeno Gourmet sabe que o diabetes é uma doença séria que não afeta só adultos, mas também as crianças. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), nos anos 90, o número de crianças com diabetes no mundo era de 1 caso a cada 15 mil, hoje essa proporção saltou de 1 a cada 8 mil diagnósticos. No Brasil, a estimativa é de que  cerca de 200 mil novos casos de diabetes sejam identificados por ano no país, sendo que uma parte desse número será composto de crianças.

O diabetes infantil está relacionado a uma série de fatores como hereditariedade, obesidade e até a má alimentação da mamãe durante a gravidez. Para ajudar os papais a entenderem como essa doença se desenvolve nos pequenos, seus sintomas e quais são as melhores formas de tratamento, o Pequeno Gourmet conversou com o médico endocrinopediatra do Hospital Infantil Sabará, Dr. Felipe Monti Lora. Confira nossa entrevista exclusiva:

Pequeno Gourmet: Qual é o quadro de diabetes infantil hoje no Brasil? Houve um crescimento dos casos nos últimos anos?

Dr. Felipe: A maior parte dos casos de diabetes no mundo são do tipo 2 da doença (mais de 90%) e, portanto, os dados conhecidos se referem em especial a esse tipo que acomete, principalmente, adultos. Sabe-se que 9% da população mundial é diabética e a doença concentra-se em países menos ricos (75% dos casos). No Brasil, esse número chega a 10,2% da população adulta, sendo em torno de 15 milhões de diabéticos conhecidos e 5 milhões ainda não diagnosticados. Estima-se mais de 200 mil diabéticos novos por ano no Brasil, o que aumenta o número total em torno de 80 mil pacientes novos por ano( já que nem todos vão começar a se tratar de imediato). Até 2040 o número total pode aumentar em 11% e parte dessa população são crianças, em grande maioria com diabetes tipo 1, que também é crescente.

PG: Qual é a relação entre a obesidade infantil e o desenvolvimento de diabetes?

Dr. Felipe: A obesidade e também o sobrepeso infantil, junto com outros fatores de risco, podem aumentar a resistência do corpo ao hormônio insulina que predispõe o indivíduo ao diabetes do tipo 2. Nesse diabetes, o hormônio é produzido, mas vai tendo cada vez maior dificuldade de agir, não conseguindo tirar o açúcar do sangue para colocá-lo dentro das células onde será metabolizado para virar energia. Isso leva tempo e, em geral, acontece na vida adulta ou adolescência. O principal tipo de obesidade que aumenta o risco de diabetes é aquela em que a gordura se concentra no abdome (barriga). Outros fatores que aumentam o risco de diabetes são histórico familiar, sedentarismo e má nutrição da mãe durante a gestação!

PG: Quais são os principais sintomas que as crianças demonstram quando estão com diabetes?

Dr. Felipe: Os sintomas mais comuns são excesso de sede, necessidade de urinar frequentemente, perda de peso e cansaço. Mas se o quadro evoluir sem percepção, pode apresentar fome em excesso, turvação visual, infecções frequentes, vômitos, dor abdominal e até sonolência excessiva e coma. Nas crianças que desenvolvem mais comumente o diabetes tipo 1 é preciso alertar que o quadro avança mais rapidamente.

PG: Filhos de diabéticos têm maiores chances de desenvolver a doença?

Dr. Felipe: Sim. Esse é um fator de risco para o diabetes, mas, em geral não tem força suficiente para já prever a doença nos filhos. Exceção são tipos raros de diabetes de cunho bastante hereditário, como MODY ( Maturity-Onset Diabetes of the Young- MODY tem manifestação precoce e acontece em pelo menos 3 gerações atingidas pelo diabetes). No caso do tipo 2, tão importante ou mais que a herança genética, são os hábitos semelhantes que corroboram para a doença.  

PG: Que tipo de alimentação uma criança com diabetes deve ter? E o que ela deve evitar?

Dr. Felipe: Essa é uma questão muito individualizada por paciente e por tipo de doença. Se considerar que no diabetes tipo 1 a criança não produz o hormônio insulina e seu tratamento nada mais seria que uma reposição hormonal, ela poderia comer de tudo. Porém, cada paciente tem um gosto e uma dificuldade individual do tratamento que a faz selecionar alimentos que lhe deixem mais confortável para o acompanhamento, assim como os horários das refeições. Para o diabético tipo 2, a dieta deve objetivar a perda ou manutenção do peso e alguns alimentos que classificamos como de alto índice glicêmico podem ser evitados. Esses alimentos aumentam muito rápido o açúcar no sangue, o que não é bom para o diabético.  

PG: Há alguma chance de uma criança que possui diabetes hoje, deixar de ter a doença com o passar dos anos?

Dr. Felipe: Naturalmente, no diabetes tipo 1 bem diagnosticado não. Logo após o diagnóstico, algumas crianças vivenciam uma fase da doença em que o órgão que produz insulina (pâncreas) consegue voltar a trabalhar um pouco. Chamamos isso de “lua de mel”, mas ela é temporária. Em relação ao diabetes tipo 2, a perda de peso e atividade física podem ajudar o paciente a controlar a doença e até se livrar de medicações, mas sua tendência à resistência insulínica aumenta com o passar dos anos e sempre existe potencial de retorno. Os avanços para controlar o diabetes têm sido imensos na última década, mas a cura não é uma realidade, ainda.

PG: Há alguma maneira das mães prevenirem o diabetes em seus filhos por meio da alimentação?

Dr. Felipe: O diabetes tipo 1 não é possível de se prevenir. O diabetes tipo 2, naqueles que têm fatores de risco, ou a resistência a insulina já diagnosticada, pode ser prevenido ou pelo menos postergado através de dieta balanceada, em acompanhamento com profissional especializado.

PG: Como é o tratamento de diabetes em crianças?

Dr. Felipe: Depende do tipo de diabetes. O diabetes mais comum, tipo 1, necessita controle de níveis de açúcar no sangue através de exames de ponta de dedo e/ou sensores de glicemia, além das aplicações de insulina em tecido subcutâneo (injeção). Essa administração de insulina pode ser feita com seringa e agulha, canetas de insulina, ou até sistemas de infusão contínua (“bomba” de insulina). O modelo de tratamento depende do conhecimento do paciente (ou dos pais e responsáveis) sobre a doença e suas necessidades. Um professor que tive em Boston dizia que tratar o diabetes tipo 1 é como “tocar piano com luvas de boxe”. E é isso mesmo! Portanto, faz parte do tratamento escolher o melhor dispositivo para a luta! Os outros tipos de diabetes em geral são controlados com medicamentos via oral, além de dieta e atividade física.

 

Sobre o entrevistado
Nome: Dr. Felipe Monti Lora
Profissão: médico

Sobre:

Endocrinopediatra no Hospital Infantil Sabará

dr-felipemontiendocrinopediatra

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