Início, pinça e BLW: as fases da motricidade dos bebês

Por que é importante oferecermos os alimentos no tamanho e na textura correta para nossos filhotes? Porque tudo depende da dentição e da coordenação motora da criança. Por exemplo, para oferecer pedaços maiores de comida, além de contar com os dentinhos do bebê, temos que entender a capacidade motora dele, se ele já consegue de fazer a pinça com os dedinhos. Um dos estudos que avaliam esse começo de “independência” da colher – e da mamãe – é chamado de BLW (Baby LedWeaning), que consiste em oferecer a comida em pedaços e permite que o bebê se sirva sozinho, além de auxiliar no desenvolvimento da fala. O Pequeno Gourmet conversou com a fonoaudióloga Carla Lucchi Pagliaro, especialista no Método Neuroevolutivo – Bobath, para saber mais sobre o assunto. Confira abaixo a entrevista que a especialista concedeu exclusivamente para o Pequeno Gourmet!

Pequeno Gourmet: Por que é importante oferecermos os alimentos no tamanho e na textura correta para nossos filhotes?

Carla Lucchi Pagliaro: Para que a criança passe pela experiência de mastigar os alimentos com suas determinadas texturas e consistências. Dessa maneira a mãe estará promovendo o adequado desenvolvimento de toda musculatura orofacial do bebê, prevenindo possíveis disfunções na infância. Se possibilitarmos que essa experiência seja realizada de forma positiva e adequada, ou seja, respeitando todas as fases do desenvolvimento motor global e motor oral da criança, maiores serão as chances de obter sucesso na dinâmica da alimentação.

PG: O que é a fase chamada de início e pinça?

CLP: A fase de início corresponde ao período de introdução da alimentação complementar. A partir dos seis meses de idade, o uso exclusivo de leite materno não supre mais todas as necessidades nutricionais da criança e o sistema digestivo encontra-se amadurecido para tolerar outros tipos de alimentos.

Aos seis meses de idade, a criança adquire as habilidades motoras globais necessárias para sentar e controlar cabeça e tronco. O crescimento da face, da boca e o abaixamento da estrutura laríngea resultam em espaço suficiente na cavidade oral para permitir a entrada de alimentos com a colher. Nessa fase há atenuação do reflexo de protrusão de língua, o que facilita a ingestão de alimentos em forma de purês e semissólidos.

Nessa etapa, de acordo com o Manual de Orientação para Alimentação do Lactente, descrito pelo Departamento Científico de Nutrologia, da Sociedade Brasileira de Pediatria (2012), a orientação correta na forma em oferecer os alimentos é amassá-los com o garfo e oferecidos com uma colher pequena, estreita e rasa. Deve-se evitar a oferta de alimentos batidos no liquidificador.

A fase de pinça ocorre entre os 8-10 meses de idade, na qual a criança apresenta habilidades motoras finas, ou seja, são capazes de alimentar-se com os dedos de forma independente realizando o movimento de pinça para explorar os alimentos.  A coordenação olho-mão é fundamental para que a criança possa apreender, manipular, soltar o alimento, levá-lo em direção a boca, movê-lo dentro da boca com o dedo, para mastigá-lo, mordê-lo em pedaços pequenos, mesmo com ausência de dentes.

PG: Por que cada fase deve ser observada e respeitada?

CLP: Porque cada criança apresenta o seu tempo de desenvolvimento motor global e motor oral necessários para lidar com os alimentos de diferentes texturas, contribuindo de forma efetiva para o sucesso da alimentação.  Essas habilidades também dependem de outros aspectos, como a estimulação do meio ambiente e os hábitos alimentares da família. Respeitar cada fase de alimentação da criança significa torná-la uma relação positiva com a alimentação. A forma como os pais irão agir e lidar nesse momento, é crítica para o sucesso. Os pais/cuidadores são responsáveis por construir essa relação afetuosa com a alimentação de seus filhos. As crianças começam a exercer maior controle do meio ambiente aos seis meses de idade e começam a ser mais ativos no momento da alimentação.

PG: Quando sabemos que o bebê já saiu de uma para entrar em outra etapa? Há idade determinada ou cada criança tem o seu tempo?

CLP: A orientação correta para a transição das fases de alimentação está diretamente relacionada ao grau de evolução do desenvolvimento motor global das crianças, como estabilidade da cabeça e tronco. Aos seis meses, os alimentos devem ser amassados com o garfo e oferecidos com a colher rasa e estreita; dos oito aos onze meses, a consistência alimentar deve, gradativamente, passar para a da refeição da família, com ajuste da consistência, para que aos 12 meses de idade, a criança utilize a mesma consistência de alimentos consumidos pela família. Entretanto, como mencionado anteriormente, cada criança possui o seu tempo e ritmo para alcançar todas as etapas do desenvolvimento alimentar. A orientação do pediatra é estritamente necessária e caso seja verificado algum problema relacionado à alimentação, o fonoaudiólogo é o profissional capacitado para auxiliar neste processo.

PG: O que é o BLW (Baby Led Weaning)? Qual sua importância para o desenvolvimento do bebê?

CLP: O BLW é um método de introdução alimentar, do qual a criança passará por um processo de desmame gradual de mamar no seio materno para a ingestão de outros tipos de alimentos. Nesse método, o bebê é exposto a uma série de alimentos sólidos (em sua forma natural), para que seja capaz de pegar com as suas mãos e dessa forma, os bebês passarão tanto pelo aprendizado e experiência prévia da mastigação, como também de outros estímulos sensoriais dos alimentos, como o sabor, a cor, o cheiro, o tamanho e a textura. Neste método, o bebê é que está no controle da situação de alimentação, ou seja, ele escolhe o momento que deseja se alimentar e a quantidade a ser ingerida. Se você mamãe, optar por esse método de introdução alimentar, é importante consultar sempre o pediatra do seu filho, pois juntos e com orientação adequada vocês podem definir qual o método mais seguro e eficaz.

PG: Qual a relação entre a coordenação motora, a mastigação e a deglutição, positiva e negativamente, na fala/dicção da criança?

CLP: As etapas de aquisição motora das crianças, como sentar, engatinhar e andar estão ligadas diretamente no desenvolvimento adequado de todas as fases de transição de alimentação. Se uma criança por exemplo, não consegue sustentar a cabeça aos cinco/seis meses de idade, seja por um atraso no desenvolvimento em decorrência de um diagnóstico neurológico ou até mesmo na ausência de algum diagnóstico médico, ela não está apta a receber alimentos sólidos em pedaços. Isto porque o controle da cabeça, assim como o do tronco estão diretamente ligados no desempenho de toda musculatura envolvendo o processo de deglutição. Por isso é fundamental que o início da oferta dos alimentos, de diferentes texturas deve ser cuidadosamente orientado pelo pediatra. Quanto mais cedo a criança passar pela experiência e aprendizado da mastigação, ela exercitará todos os músculos do complexo orofacial e com há chances menores de ocorrer alguma dificuldade relacionada a este processo.

Em um estudo publicado no Journal of Human Nutrition Dietetics, em 2001, os autores verificaram que as dificuldades alimentares foram encontradas em 52,3 % das crianças que receberam o alimento sólido após os 10 meses de idade. E as crianças que receberam os alimentos sólidos aos 6 meses de idade (comparada com as crianças que receberam alimento sólido entre 6-9 meses) ingeriram uma quantidade maior de alimentos, foram menos propensas a recusar os alimentos sólidos e mais propensas a aceitarem uma variedade ampla de alimentos consumidos pela família.

O desenvolvimento da fala das crianças não está relacionado a ingestão de alimentos de diferentes texturas, mas sim, de outros aspectos, como a estimulação do meio ambiente no qual essa criança está inserida, como a casa, a escola, etc, desenvolvimento global e a necessidade da criança em utilizar a fala como meio de comunicação. Na literatura científica já é comprovado que o uso prolongado de mamadeira e chupeta após os dois anos de idade contribuem em alterações na arcada dentária das crianças, favorecendo um padrão de respiração inadequado (oral). A incidência do uso da chupeta na infância é alta e é comumente descrito em artigos científicos. Isso poderá levar a alterações na movimentação da língua e da musculatura perioral, tornando-as flácidas, o que favorece o posicionamento incorreto da língua em repouso. Este fato pode levar a alterações tanto no padrão de deglutição, mastigação e respiração, como também em distorção de alguns sons da fala da criança.  

PG: Durante a primeira infância, o que é importante observar e de que forma alguns sinais podem atrapalhar ou auxiliar na formação do paladar e na fala?

CLP: A estimulação de hábitos saudáveis da alimentação da criança deve ser iniciada assim que é introduzida a alimentação complementar, por volta dos 6 meses de idade. Nessa fase, a mãe deve oferecer uma grande variedade de verduras, legumes, frutas para que a criança adquira o conhecimento de diferentes sabores, cores, texturas e consistências dos alimentos. A criança poderá sim, recusar, mas nessa fase é super importante não desistir, pois a criança está aprendendo a aceitar esses novos sabores, e isso pode levar algum tempo.

Estudos apontam que a criança deve experimentar, de pelo menos 15 a 18 vezes o mesmo alimento, antes que os pais a descrevam como não gostar de determinado sabor. Se os pais observarem alguns sinais durante a alimentação das crianças, como a presença de engasgos, de recusa alimentar, de seletividade alimentar (preferência da criança em se alimentar de determinadas cores ou consistências de alimentos), comportamento de choro, irritação e se a criança só consegue se alimentar com o uso de distração como vídeos, desenhos durante as refeições são indicativos de dificuldades relacionadas a esse processo. Caso seja identificado alguns desses aspectos, converse com o seu pediatra e a criança deverá ser encaminhada para uma avaliação por um fonoaudiólogo especializado.

Até os 3 anos de idade, é fundamental que a criança adquira hábitos alimentares saudáveis, pois isso se repercutirá na vida adulta. Pesquisas já confirmam que se a criança consumir grande variedades de verduras, legumes e frutas na infância, a chance em adquirir doenças crônicas, como diabetes, colesterol, doenças cardíacas diminui significativamente, além de torná-las mais propensas a adquirir uma alimentação saudável também na vida adulta.  Em relação a fala, os pais devem observar e estimular para que a criança tenha a intenção de utilizá-la para comunicação. Desprender um tempo diário para sentar e brincar, conversar, cantar com os filhos são importantes, pois é na estimulação com brincadeiras simbólicas que as crianças adquirem novos conhecimentos de linguagem.

 

Sobre o entrevistado
Nome: Carla Lucchi Pagliaro
Profissão: Fonoaudióloga
Contato:

blog Carla Pagliaro Fonoaudiologia

Telefone: 11  5093-3189 , site: www.carlapagliaro.com.br e email: carla@carlapagliaro.com.br


Sobre:

É formada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), tem especialização pelo Método Neuroevolutivo – Bobath, é Mestre em Ciências da Reabilitação – Área de Comunicação Humana- pelo Departamento de Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional Universidade de São Paulo- Faculdade de Medicina- USP-SP

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