Mastigar bem ajuda a digestão e a evitar a obesidade infantil

O Pequeno Gourmet já mostrou na série sobre mastigação, o quanto mastigar bem pode ajudar o filhote no processo da introdução alimentar e no seu desenvolvimento saudável, inclusive da dentição. No sexto episódio da série, conversamos com a gastroenterologista pediátrica, Dra. Jocemara Gurmini, que nos falou sobre como mastigar bem pode, sim, ajudar as crianças a terem uma melhor digestão dos alimentos e até a evitar a obesidade.

Pequeno Gourmet: Qual a importância da criança mastigar os alimentos da maneira correta?

Dra. Jocemara: O processo da mastigação influencia no desenvolvimento dos músculos da face e até na fala das crianças. O ato de mastigar funciona como um exercício tanto para a língua, quanto para a musculatura da face. É muito importante que, para que tudo funcione corretamente, o alimento seja bem mastigado. Não há um número exato de vezes, porque isso depende do tamanho e da característica de cada alimento e também do desenvolvimento mastigatório de cada pessoa. Mas, é essencial que sempre se mastigue muito bem!

Pequeno Gourmet: Como a mastigação pode ajudar na boa digestão?

Dra. Jocemara: Quando a mastigação acontece da maneira correta, além da trituração dos alimentos ocorre também uma melhor produção da secreção salivar e do suco gástrico (líquido que atua sobre o bolo alimentar, principalmente as proteínas, facilitando sua absorção e digestão), o que contribui para a boa digestão.

Pequeno Gourmet: Comer muito rápido, pode ajudar no desenvolvimento da obesidade?

Dra. Jocemara: Sim. O processo da mastigação é fonte rica de diversos impulsos, que ajudam a estimular a saciedade (ou seja, quem mastiga menos, pode ter mais menos saciedade e mais fome). Por essa razão é muito importante e recomendável para quem está acima do peso, mastigar adequadamente as refeições para poder se sentir mais satisfeito.

Pequeno Gourmet: A ingestão de líquidos (água, sucos) durante as refeições pode atrapalhar na digestão dos alimentos?

Dra. Jocemara: Quando ingerimos líquidos durante a refeição, a mastigação pode sair prejudicada. Isso acontece porque, a pessoa acaba como que “empurrando” o alimento para a fase da deglutição (engolir), sem que tenha mastigado a refeição todas as vezes necessárias. Tudo isso prejudica a primeira fase da digestão que é a quebra dos alimentos em partículas menores na boca e a produção suficiente de saliva, responsável por iniciar a digestão do amido. Ou seja, com a ingestão de líquidos durante as refeições, e sem a mastigação correta, as etapas iniciais da digestão acabam sendo puladas.

Pequeno Gourmet: Não mastigar os alimentos da maneira adequada pode causar gases e prisão de ventre entre as crianças?

Dra. Jocemara: A prisão de ventre e os gases acontecem por diversas causas, não necessariamente devido a mastigação. Quando não se mastiga o alimento da forma adequada a dor abdominal pode ser recorrente. Caso aconteça a ingestão de ar durante o processo (aerofagia, algo comum quando se come de maneira apressada), a criança pode, sim, apresentar desconforto e dor diante do acúmulo de gases.

Pequeno Gourmet: A mastigação errada pode também dificultar a absorção de nutrientes e levar a casos como a desnutrição entre os pequenos?

Dra. Jocemara: Crianças com dificuldade na mastigação podem ingerir menor quantidade de alimentos e consequentemente menos calorias.

Pequeno Gourmet: Existem doenças que atrapalham as crianças mastigar da maneira correta?

Dra. Jocemara: Sim, existem. O distúrbio da deglutição, que é algo comum em crianças que não conseguem mastigar adequadamente, não costuma aparecer sozinho. Ele pode estar associado tanto a doenças musculares, quanto à paralisia cerebral. Alguns casos de dificuldade ao mastigar também estão ligados à má formação da arcada dentária. Para o tratamento dos primeiros casos é muito importante a procura de um atendimento médico multidisciplinar, com fonoaudiólogo e nutricionista. E no caso dos problemas dentários é recomendável a procura do dentista, para que a criança volte a mastigar melhor.

Pequeno Gourmet: Na fase da introdução alimentar, quando as crianças estão começando a descobrir a textura dos alimentos sólidos e também aprendendo a mastigar, que tipo de alimento é mais recomendado?

Dra. Jocemara: Nessa fase é importante que a criança receba frutas amassadas ou raspadas e a papa principal com alimentos cozidos amassados. Com o início da introdução alimentar aos seis meses, além da amamentação, outros alimentos mais pastosos podem ser incluídos no cardápio. À medida que os meses vão passando, deixe os alimentos cada vez menos amassados e com pedaços maiores, para garantir uma melhor habilidade motora e desenvolvimento da dentição. Mantenha sempre muita atenção ao tamanho dos alimentos sólidos que oferecer e os aumente de maneira gradual. É importante lembrar que essa é uma fase essencial, porque quando se faz o contrário, servindo alimentos batidos no liquidificador por muito tempo, por exemplo, a introdução dos sólidos pode ser mais difícil e pode acabar favorecendo náuseas nas crianças, além de prejudicar a mastigação.

Pequeno Gourmet: Quais alimentos não são indicados para essa fase?

Dra. Jocemara: É recomendável que até os dois anos, os doces não sejam oferecidos. Iogurtes, petit suisse e flan também devem ser evitados em crianças que mamam. Essa é uma época marcada por experiências com texturas e consistências que devem ser estimuladas com frutas, verduras, legumes, hortaliças, cereais e carnes de uma forma equilibrada.

 

Sobre o entrevistado
Nome: Dra. Jocemara Gurmini
Profissão: Gastroenterologista pediátrica

Sobre:

Médica responsável pelo serviço de Suporte Nutricional do maior Hospital exclusivamente pediátrico do país, o Pequeno Príncipe.

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